Mas minha preocupação agora era outra. Tudo o que se falava no barco, era que a capacidade de carga estava sendo superada, e que mesmo assim, não paravam de vender bilhetes e jogar caixas e mais caixas no porão. Como não ando com muita sorte, um pouco me preocupei. Mas depois de uma denuncia, chegou a Capitania para uma vistoria e a viagem foi liberada.
Logo percebi que ali na muvuca cabe muito mais redes do que eu poderia imaginar. Elas não paravam de chegar. E haja calor humano! Minha rede encostava em outras 4 ou 5. E dormi quase de conchinha com a tia do meu lado, com um pé apoiado sob a minha cabeça.
Da minha rede fiz amizades e observei pessoas que definitivamente não estavam ali a passeio como eu. Seu Wilson, por exemplo, tinha levado a esposa ao médico em Belém: marca a consulta e sai de Almeri 3 dias antes para chegar a tempo, com seu dinheiro contado. Em uma das paradas, sobe uma menina, de uns 18 anos, com dois bebês de colo. Por tantas vezes ouvi nesse mês que sou corajosa de viajar sozinha, mas pra mim, referência de coragem é ela.
Hora de acordar é antes do sol nascer. E pude me emocionar com o espetáculo de idas e vindas do sol por 3 dias seguidos, além das estrelas incontáveis. Os outros passageiros, logicamente, não se entretiam com algo que faz parte da vida deles desde sempre. E me frustrou observar que banalizam tanto esse cenário, a ponto de lançar tudo no rio, como se esse fosse um grande lixo. E lá iam sacos plásticos, latas de cerveja, etc. A cada coisa que via voando em direção ao rio, me vinha espontaneamente um berro: não! Olhando na direção do autor do fato.
O cardápio não mudou nos 3 dias de viagem: arroz, feijão, macarrão e carne. E muita farinha que o povo deposita nos pratos.
No meio da tarde, canoas conduzidas por crianças vinham na direção do barco. Com um gancho e muita habilidade eles conseguiam se prender, e escalar os 3 andares como macaquinhos, trazendo para vender açaí e camarão seco, na esperança de também receber qualquer ajuda que os passageiros pudessem lhe oferecer.
No barco, fui observada pelos locais com uma estranheza digna dos colegas gringos que ali conheci. Talvez pelos traços, ou modo de se vestir. Ou, possivelmente, porque turistas brasileiros ainda não desembarcaram nesse outro Brasil. Fica aí a recomendação, de uma das melhores experiências que já vivi!