terça-feira, 21 de junho de 2011

De Belém a Santarém - 3 dias de rede.

Não adiantou chegar cedo para o embarque. Quando entrei no barco, os melhores espaços já tinham sido ocupados por redes alheias, que preenchiam o saguão do barco com uma imensidão de cores. Uma alma bondosa deve ter percebido o meu desespero de não encontrar um buraco e me indicou o caminho. Um senhorzinho fez a grande gentileza de amarrar minha rede na barra, e ufa! Lá estava eu acomodada na minha rede king size, onde passaria os próximos 3 dias na viagem de Belém a Santarém.





Mas minha preocupação agora era outra. Tudo o que se falava no barco, era que a capacidade de carga estava sendo superada, e que mesmo assim, não paravam de vender bilhetes e jogar caixas e mais caixas no porão. Como não ando com muita sorte, um pouco me preocupei. Mas depois de uma denuncia, chegou a Capitania para uma vistoria e a viagem foi liberada.

Logo percebi que ali na muvuca cabe muito mais redes do que eu poderia imaginar. Elas não paravam de chegar. E haja calor humano! Minha rede encostava em outras 4 ou 5. E dormi quase de conchinha com a tia do meu lado, com um pé apoiado sob a minha cabeça.

Da minha rede fiz amizades e observei pessoas que definitivamente não estavam ali a passeio como eu. Seu Wilson, por exemplo, tinha levado a esposa ao médico em Belém: marca a consulta e sai de Almeri 3 dias antes para chegar a tempo, com seu dinheiro contado. Em uma das paradas, sobe uma menina, de uns 18 anos, com dois bebês de colo. Por tantas vezes ouvi nesse mês que sou corajosa de viajar sozinha, mas pra mim, referência de coragem é ela.

Hora de acordar é antes do sol nascer. E pude me emocionar com o espetáculo de idas e vindas do sol por 3 dias seguidos, além das estrelas incontáveis. Os outros passageiros, logicamente, não se entretiam com algo que faz parte da vida deles desde sempre. E me frustrou observar que banalizam tanto esse cenário, a ponto de lançar tudo no rio, como se esse fosse um grande lixo. E lá iam sacos plásticos, latas de cerveja, etc. A cada coisa que via voando em direção ao rio, me vinha espontaneamente um berro: não! Olhando na direção do autor do fato.





O cardápio não mudou nos 3 dias de viagem: arroz, feijão, macarrão e carne. E muita farinha que o povo deposita nos pratos.

No meio da tarde, canoas conduzidas por crianças vinham na direção do barco. Com um gancho e muita habilidade eles conseguiam se prender, e escalar os 3 andares como macaquinhos, trazendo para vender açaí e camarão seco, na esperança de também receber qualquer ajuda que os passageiros pudessem lhe oferecer.



No barco, fui observada pelos locais com uma estranheza digna dos colegas gringos que ali conheci. Talvez pelos traços, ou modo de se vestir. Ou, possivelmente, porque turistas brasileiros ainda não desembarcaram nesse outro Brasil. Fica aí a recomendação, de uma das melhores experiências que já vivi!

quinta-feira, 16 de junho de 2011

O desânimo depois dos piratas.

Durante as nossas conversas no barco, na ida para ilha, Alexandre comentou comigo “Nessa região tem piratas, sabia”? “Como assim, piratas”? “Piratas. Não aquele que você lembra da infância. Piratas, que entram no barco pra roubar”. “Sério”? E logo mudamos de assunto.

Nessa terça, eu tava voltando da ilha de Marajó para Belém. Talvez o dia mais feliz de todos da viagem, depois te ter conhecido um lugar tão lindo, e tantas pessoas que me inspiraram. E depois te ter feito algumas fotos que eu julguei terem sido as melhores da vida, que não cansava de ver e rever, ansiosa pra baixar no computador e dividir com todos.

Vinha no barco, com o notebook aberto, escrevendo. E na minha cabeça, pensava que a experiência que eu queria viver nessas férias estava apenas começando. O Pará é o canal!

Mas o barco desligou o motor, e eu ouvi barulhos que só entendi que eram tiros quando vi as pessoas desesperadas, correndo , se jogando no chão, procurando um lugar seguro pra ficar. Fiz o mesmo, larguei meu computador em algum lugar, e pensei que ia morrer, de verdade. Adoro andar por esse mundo sozinha, mas nessa hora eu não queria tar nessa condição. Não mesmo!

Até que começou a gritaria. “Todo mundo no chão” “No chão, porra, quer morrer?”. Eu enxergava pouco entre os dedos, mas vi quando um dos piratas pegou uma menina como refém. Quando os 10 piratas armados “instalaram a ordem “ que eles queriam, começaram a pedir celular e dinheiro. Consegui ficar mais tranqüila do que poderia imaginar que ficaria numa situação dessas, mas meu pavor voltava toda vez que pisavam do meu lado, ou em cima da minha perna pra passar. Eles caminhavam em cima das pessoas, porque tava todo mundo deitado no chão.

Depois de mais de 2 horas ouvindo esses caras causarem o terror, de ouvir todos os tipos de ameaças e aquele barco ligar e desligar, andar e parar tantas vezes, finalmente chegou o momento em que eles foram embora. O alivio foi imenso, tava todo mundo muito abalado no barco, e as roupas de todos espalhadas pelo chão.

Pouco tempo depois, da televisão do barco mesmo, acompanhávamos o nosso drama pela TV. Estavam nos aguardando, na doca em Belém: todas as emissoras de TV, polícia (não sei pra quê), e familiares das pessoas do barco. E a repórter anunciava: uma das embarcações ainda está desaparecida. Hã? Menos, né? A mídia exagera. Na chegada é lógico, pegaram para dar depoimento as pessoas mais sensibilizadas.

Resumo da ópera. Levaram tudo meu: computador, ipod, celular, maquina fotográfica, e outras coisas menores. Fiquei chateada de ter perdido tudo, mas o que me deixou arrasada e sem vontade de mais nada foi ter perdido todas as fotos que fiz no Maranhão e no Marajó. É como se roubassem a minha memória desses dias. Tem um significado imenso pra mim, que talvez não seja muito fácil de compreender. E todas essas histórias sem fotos que posto aqui, parece que não transmitem nem um décimo da experiência que tive.

Fiquei na duvida se continuava a viagem ou se voltava. O entusiasmo de continuar não existe mais, mas ao mesmo tempo, passar a ultima semana de férias em SP não me parece a melhor opção. Então, vamos em frente.

terça-feira, 14 de junho de 2011

A ilha do Marajó é isso.

Uma cantiga de amor se mexeu
Uma tapuia no porto a cantar
Um pedacinho de lua nascendo
Uma cachaça de papo pro ar
Um não sei quê de saudade doente
Uma saudade sem tempo ou lugar
Uma saudade querendo, querendo
Querendo ir e querendo ficar

Uma leira, uma esteira,
Uma beira de rio
Um cavalo no pasto,
Uma égua no cio
Um princípio de noite
Um caminho vazio
Uma leira, uma esteira,
Uma beira de rio

E, no silêncio, uma folha caída
Uma batida de remo a passar
Um candeeiro de manga comprida
Um cheiro bom de peixada no ar
Uma pimenta no prato espremida
Outra lambada depois do jantar
Uma viola de corda curtida
Nessa sofrida sofrência de amar

E o vento espalhado na capoeira
A lua na cuia do bamburral
A vaca mugindo lá na porteira
E o macho fungando cá no curral

O tempo tem tempo de tempo ser
O tempo tem tempo de tempo dar
Ao tempo da noite que vai correr
O tempo do dia que vai chegar

Pauapixuna (Fafá de Belém)

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Hospitalidade Marajoara

Chegar na Casa Alemã, onde eu ficaria hospedada em Soure, foi como visitar alguém da família. Não poderia ter sido melhor recebida por Stela e Bernardo.

Eu era a única hóspede da casa, e na segunda feira, enquanto tomava um café da manhã, que serviria bem mais umas 2 pessoas, Stela me ajudava a decidir a minha programação do dia. Quando optei por fazer o percurso de bicicleta, ela me alertou “Tetê, é longe, melhor você ir de mototaxi”. Perguntei quantos kilometros. Ela respondeu "uns 10, 12 kilometros", e fez aquela cara de quem não botou fé no meu taco. Disse que tudo bem, que estou acostumada a fazer exercícios. “Então tome todo esse café da manhã aí”.

E lá fui eu, pedalando por uma estrada longa, onde devo ter sido ultrapassada apenas por uns 2 carros e umas 3 motos. Sempre ao lado de muito verde, até chegar a Praia do Pesqueiro, onde pela primeira vez na vida pude tomar um banho de aguá doce na praia! Fiquei deslumbrada com aquele lugar, e quando a chuva começou a ameaçar, parti para a minha próxima parada, que seria na Fazenda São Jerônimo.

Nesse meio tempo, tomei um banho de chuva de lavar a alma, como não fazia há uns 15 anos.

Na fazenda, conheci Seu Arigó e Nonato, que me convenceram a subir em cima do búfalo para um passeio. Depois andamos pela praia, fizemos uma trilha em meio ao mangue, e por fim, voltamos de canoa. Nonato me contou várias histórias. Só acreditei na metade!

A volta pra casa não foi tão fácil como a ida. Eu já estava cansada e com fome. Mesmo assim, curti cada segundo da minha pedalada, naquele começo de noite chuvosa, percebendo que assim como eu, tantos marajoaras pedalavam de um lado pro outro.

Quando finalmente cheguei, Stela me esperava. “Quero saber como a senhora passou com essa chuva”? E ela riu, de me ouvir responder “maravilhosamente bem”!

domingo, 12 de junho de 2011

Rumo a Ilha do Marajó

"Preciso tirar uma foto desse sujeito". Foi o que pensei quando vi Alexandre no barco de Belém a Ilha do Marajó. Esse cara olhava para o horizonte, enquanto o vento fazia seus cabelos longos esvoaçarem. Tinha um turbante na cabeça e a pele bronzeada do sol que contrastava com os olhos claros.

Para minha surpresa foi Alexandre que puxou conversa comigo. E logo estava eu no maior papo com ele e mais dois amigos seus, em conversas inspiradoras enquanto tomavamos uma cerveja pra aliviar o calor daquele domingo de manhã.

Mas a foto que eu tanto queria não foi uma tarefa fácil. Ele se recusava em ser fotografado. Ainda assim consegui roubar algumas.
Depois entramos numa discussão, quando uma mosca verde pousou na minha perna. Ele teimava em dizer que aquilo era uma abelha. Abelha verde? Acho que perdi essa aula de biologia. "Garota, tu mora em São Paulo, pra ti tudo é mosca". Tá bom então.

Chegando na Ilha do Marajó, percebi que foi uma sorte ter encontrado esses três, que se revezaram para carregar minha mochila de 17 kilos. Nada mal. Do porto pegamos um onibus com destino a Soure, e ainda tivemos que atravessar o rio com uma bareta ou rabeta - não lembro bem o nome - um barquinho bem mequetrefe que resolveu pifar no meio da travessia. Mas logo nos agarramos em outro desses e chegamos ao destino.

No caminho uma coisa curiosa. Percebi que Deus é mais fiel para esses lados, ou pelo menos assim as pessoas daqui acreditam. Em todos os estabelecimentos, tava lá, registrada a crença nas fachadas. Papelaria, Mercearia, Açougue "Deus é Fiel". Achamos que seria mais coerente para um açougue "deus é filé"!

Em Soure, fui convidada por Alexandre para almoçar com ele e a familia, na sua casa, onde a sua mulher de 19 anos nos esperava com um banquete. Eu e Rafael, o outro amigo continuavamos a comer, quando Alexandre levantou da mesa e deu o recado. "Tetê, se quiser não precisa ir embora, pode ficar por aí, toma um banho, tem uma rede aí. Só lava a louça, tá"? Então lembrei da minha mãe, e achei que já tava mesmo na hora de ir pra pousada.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Noronhense não, privilegiado!

O melhor das viagens são sem dúvidas, os encontros. Mesmo as paisagens mais deslumbrantes de Fernando de Noronha esvaziam-se uma hora. Por isso, um dos melhores dias da semana foi quarta feira, quando conhecemos Chico, um nativo que despretenciosamente puxou assunto, levou a gente pra conhecer a cachoeira que existe escondida na praia do Sancho, nos mostrou a sua toca, um esconderijo em meio a vegetação que beira a praia, e depois nos acompanhou na trilha até chegar na praia da Cacimba.
Dia de muitas risadas, com essa criatura. Um casal de argentinos nos acompanhou durante o percurso todo, que fechou com chave de ouro no bar das gêmeas, onde comi o melhor peixe de Fernando de Noronha.


Chico pendurado no cipó!


Melhor peixe que comi em Noronha!

Lá, Chico sentou pra comer com a gente e tomar uma cerveja enquanto contava os causos da ilha e de como ensina as moças a dançarem Forró. O pessoal do bar também se juntou pra falar de como despistar o Ibama na hora de pescar em local proibido, da multa de 35 mil reais que recebaram pelos caranguejos retirados da praia, e tantos outros fatos corriqueiros da vida por lá. Quando contamos os causos do bugue, Chico ficou surpreso: “então era o bugue de vocês? Eu vi na TV Golfinho”. O roubo da bateria do bugue virou notícia na ilha!



Por fim, fiquei sabendo que quem nasce em Fernando de Noronha não é noronhense, e sim privilegiado. Mas Chico confessou também que às vezes dá uma neuronha, e quando isso acontece ele corre pra Recife. Sim, por que quem mora em Fernando de Noronha não tem neurose, tem neuronha!

O causo do bugue.

Chegando em Fernando de Noronha percebemos que as distâncias e as ladeiras não eram lá muito convidativas para uma caminhada e que um bugue cairia muito bem no nosso roteiro.

Bugue amarelo na mão e lá vamos nós para as primeiras voltas pela ilha. Até que na saída na terceira praia nos deparamos com um pneu super furado. Apenas 2 horas e meia depois chegam os caras da locadora de bugue pra nos socorrer. Acho que o atendimento teria sido mais rápido se meu pneu tivesse furado na zona sul de SP e o socorro estivesse vindo da Mooca, sexta-feira no horário de rush! Mas tudo bem, to de férias em Noronha! Também não tinha como ficar estressado quando chegam dois figuras pra deixar um bugue vermelho “novo” na nossa mão, que eles apelidam carinhosamente de Ferrari vermelha.
A propósito, um fato muito curioso, é que o pneu do bugue não foi furado pelas diversas pedras pontiagudas das trilhas, mas sim por um prego gigante, que nos contaram, é posicionado propositalmente na estrada pelos borracheiros da região.



No dia seguinte, tudo pronto para continuar nossa peregrinação, até descobrirmos que a Ferrari vermelha não ligava de jeito nenhum. Lá vamos nós chamar novamente a locadora, e detectar o problema não levou nenhum um minuto. Durante a noite, alguém arrancou a bateria do bugue com um alicate.

Sei que em 2 dias, andamos com 3 bugues diferentes. Não fomos muito prejudicados com isso, mas foi curioso perceber que mesmo num lugar onde as pessoas não precisam de muito pra viver, tem gente que insiste em levar vantagem, ignorando que na verdade trata-se de uma vantagem muito temporária. A vida logo leva de volta aquilo que não é teu.

30 dias de havaianas.

Depois de muito quebrar a cabeça, pensando em como usufruir da forma mais produtiva-inspiradora-divertida as minhas férias de 30 e poucos dias, decidi ficar em casa mesmo. E quando eu digo ficar em casa, quer dizer, no Brasil. Com muitas mil milhas da TAM e algum $ no bolso, pensei no início em destinos excêntricos, mas sempre algum porém me fazia desistir da idéia.
Na Índia, o calor de 48º no Rajastão não me parecia muito convidativo, no Marrocos muitas restrições para mulheres que viajam sozinhas, no Egito, conflitos políticos, na Tailândia, período de chuvas e assim por diante. Cheguei a conclusão que não poderia ter tirado férias em um período pior. Mas não tinha muita escolha, já que as férias estavam vencidas. E aí, finalmente (cabeção), entendi isso tudo como um sinal de que a caminhada deveria ser por aqui mesmo. E fiquei em paz com a decisão de viajar por esse Brasil. Porque não? A viagem começa então, por Fernando de Noronha, na companhia da minha mãe, do meu irmão, e seu violão – o que sem duvida, faz toda a diferença!















segunda-feira, 23 de maio de 2011

Um bom começo.

Depois de intermináveis 20 meses sem férias, finalmente consegui juntar 37 dias para fugir um pouco da rotina. Quem trabalha no mundo corporativo sabe que essa ausência é um tanto quanto prolongada. Mas já vinha mesmo de um período sufocante querendo desesperadamente respirar fora do aquário e refletir sobre os próximos passos da minha vida. Coincidência ou não, os 30 anos recém fatos me parece mais um bom motivo para fazer um balanço.

Diante do meu objetivo de “repensar”, minhas férias não poderiam ter começado melhor. Um final de semana de imersão, junto com um grupo de pessoas preocupadas em realizar a sua proéxis (programação existencial), que nada mais é do que aquela tarefa que você veio desempenhar nesse mundo. Há tempos tenho a sensação de ter muita coisa pra fazer nessa vida, e essa inquietação só aumenta à medida que o tempo passa.



A formula não é muito complicada. Em primeiro lugar, a proéxis de qualquer pessoa nunca vai passar por acumular riquezas, ter um currículo brilhante, ser o sarado da academia ou adquirir mais e mais poder - coisas que quando essa vida acabar vai virar pó. Ela simplesmente acontece quando de alguma forma você ajuda outras pessoas a evoluir. Alguma coisa que vai repercurtir positivamente para as próximas vidas. Mas descobrir como executar isso é muito pessoal.

A gente passou o final de semana lá, tentando montar o quebra cabeça. Além de receber algumas pistas, tive oportunidade de conhecer pessoas que muito me inspiraram. Foi incrível! Mas o trabalho continua para os próximos dias...mais e mais reflexões durante as voltas que eu vou dar por esse Brasil.

“Se, na verdade, não estou no mundo para simplesmente a ele me adaptar, mas para transformá-lo; se não é possível mudá-lo sem um certo sonho ou projeto de mundo, devo usar toda possibilidade que tenha para não apenas falar de minha utopia, mas participar de práticas com ela coerentes”. (Paulo Freire)

Para quem quiser saber mais: http://blogprojetodevida.blogspot.com/2010/05/proexis-o-proposito-da-vida.html